quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Geografia da alma



Na agitação de minha primeira viagem à Europa, eu olhava pela janela do 707. Lá embaixo via algo que deduzi ser o deserto. Jogo de luz e sombra a desenhar o relevo. Minhas aulas de história se desdobravam à minha frente. D. Ieda, o Egito, a Mesopotâmia. Outros tempos, época em que ainda se fazia escala em Dakar. Agora de novo revejo na cena de um filme o deserto do alto, as mesmas cores, alturas diferentes. Parecem corpos vivos e nus espalhados na areia se aquecendo ao sol. A imagem me atrai e de novo viajo a outro lugar. Uma imensa porta de pedra onde dois leões saltam fazendo um arco.  Micenas, onde o tempo é uma variável inexistente. Lembro do som da flauta no ar e das cabras nas colinas à volta povoando o lugar de mitológicos personagens.  Anseio por estes encontros. Procuro incessantemente estes lugares capazes de me levarem a este mergulho dentro de mim.  Como um peixe desliso neste universo aquoso, fascinante. Dimensão outra daquela que vivo, guardo o fio de Ariadne firme em meu punho crispado.   Lugar é o deserto angustiante da cena do filme. Tudo e nada ao mesmo tempo. Beleza inóspita, áspera. Procuro lugares.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011


Amores efêmeros 1

Ele a viu do outro lado da rua. Linda. Hipnotizado atravessou, o futuro abrindo-se como um tapete vermelho a seus pés. Na calçada o susto do real.


Amores efêmeros 2

Amores efêmeros,

Conto efêmero,

A um piscar de olhos:

Amo, não amo,

Amo, não amo.

Espelho de nosso tempo narciso,

Voltemos ao “slow food”,

Ao “slow conto”,

Ao “slow amores”.

sábado, 10 de outubro de 2009

Um terraço ao sol

Leio Clarisse como se comesse algo , sem parar. Tenho as mãos atadas. Vou com ela nessa viagem sem conseguir voltar. Temo a mudez, o silêncio que se fez dentro de mim. Onde estou? Me perco nas mil atividades dos outros. No entanto uma flauta em meio a um terraço ensolarado me traz de volta. Chuva de pequenas notas tocando aos ouvidos. A princípio só olho, intrigada e curiosa, aquele homem com sua flauta de bambu no terraço ensolarado do restaurante da Provence, alto de longuíssmas pernas, mal cabendo no espaço que tenta desajeitadamente ocupar, incomodado que está de impor sua música ao público pouco receptivo a tocadores de flautas de bambu em terraços ensolarados da Provence. Atentamente observo o balé de suas pernas, marionete de seu próprio desconforto. Súbito se põe a tocar preenchendo o ar de notas e lembranças inesperadas. Leva-me a um quase jardim floresta de bambus gigantes, onde a contemplar a chuva que caía tomei um chá verde e amargo.O amargo aparece no final da língua, lá no fundo. Uma pequena folha rosa de açucar acompanha o chá. O Japão me foi apresentado num momento de completa exaustão. Eu estava doente, com a sensibilidade à flor da pele e aquela flauta me faz de novo mergulhar naquele mundo onde cada objeto, árvore, som ou movimento fazem um sentido todo próprio, onde eu me sentia como que incorporada àquele mundo, num movimento lento e coordenado com a paisagem. Penso que não é pela beleza estética das coisas que tudo é exaustivamente trabalhado e arranjado, mas sim pela procura de uma certa harmonia que fará com que a mente se apazigue e a dor passe. O simples olhar do belo equilibra a alma. A mente relaxa, os nós se desfazem, e você passa a fazer parte daquele todo. Fonte de descanso. O som da chuva nos bambus gigantes do templo budista de Yokohama. O gosto amargo do chá verde e o açucar da pétala a derretar na boca. Doce amargo escorregando pela garganta enquanto a floresta preenche os olhos soltando seus sons infinitos de gotas a bater nos bambus gigantes. Paz. Flauta de bambu que agora chega a meus ouvidos. Bendita flauta... De novo chove no jardim floresta de bambus gigantes num terraço ensolarado da Provence. Paradoxo japonês.

Maio/2009

sábado, 9 de maio de 2009

Avenida Atlântica 3288

Das enormes janelas entra uma brisa marinha. Lá do alto vê-se a praia e o mar infinito, azul. Olhando lá embaixo o desenho da calçada de Copacabana, vê-se os papagaios coloridos enfeitando a areia a espera da criança que vai empiná-los no final da tarde. O vento constante trás a luz do meio-dia, invade toda a sala de tetos altos e antigos móveis vindos de muito longe.

Domingo, hora do almoço. A porta de entrada bate com estrondo. Sinal da chegada do padrinho. Toda a família reunida espera. A avó, senhora italiana ereta em seu vestido de seda preto de pois branco, colar de pérolas, unhas perfeitamente manicuradas em tons pastéis. O tio e o padrinho, sérios, compenetrados, em suas camisas de linho bem passadas. O pai, menos sério, menos compenetrado mas vestido do mesmo modo. É mais jovem e bonito. Uma pequena mecha de cabelo insiste em cair displicente na sua testa. Por último a menina, 5 anos, vestido rodado de domingo, cabelo curto “joãozinho”, sapatinhos de boneca, olha enfeitiçada os passarinhos Lalique pousados na mesa em frente ao sofá. Falam italiano. Comenta-se a missa, o sermão do padre, algo sobre a política na Itália. A lembrança da guerra na velha Europa ainda paira nas vozes de todos, como um fantasma. Novidades da família que voltou.

Soa uma hora no relógio da sala. Todos se levantam e sentam-se à mesa. D. Maria Portuguesa, alvíssima senhora em seu uniforme engomado, começa o serviço à francesa.

A menina sabe que deve só ouvir, comer tudo em silêncio sem se sujar. Olha o pai pelo canto do olho procurando imitá-lo. Lá pelo meio do almoço o padrinho volta-se para a menina que enrubesse. Pergunta:

- O que é o que é. É bonitinho, risca o vidro e chora?

A menina embaraçada não sabe a resposta. Todos riem e continuam a conversa anterior.

O almoço termina. Todos se levantam e se recolhem, cada um a seu quarto. A avó munida de uma lata de biscoitos sortidos diz em português:

- Pegue um biscoito, minha filha.
- Obrigada, vovó.

Sai, ela também.

A sala é sua! Com o cuidado de uma visita de cerimônia, brinca com os passarinhos Lalique, preciosos! É preciso deixá-los como os encontrou...

Liga a televisão, e, sentada toda enroscadinha na cadeira trono que seu avô trouxe da Itália, pode finalmente ver seu teatrinho Trol. Sozinha é melhor!

domingo, 19 de abril de 2009

Fragmentos

O corpo

Ela se senta no sofá. Exausta. O corpo todo lhe dói. Um lhe puxa por uma perna, outra pelo braço, outro pela cabeça. Todos querem a posse deste corpo. Todos querem ter preenchidas suas (deles) necessidades. Nem que para isso seja preciso utilizar todo o arsenal terrorista.
O telefone toca. É sua irmã.
- Querida, não se desespere... Faça algo por você! Um preenchimento, talvez Botox... Você vai se sentir muito melhor!
Ela fecha os olhos e vê a irmã. Devastada, a irmã.


Conversa de surdos.

Marta lê para mim o email que mandou para o marido. Páginas e páginas. Conta suas descobertas, o quanto tem cuidado de si, seus passeios pela cidade da juventude, antes de casar, o novo trabalho no qual tanto tem se empenhado. A mudança para o outro extremo do país acompanhando os filhos lhe fez bem (solução encontrada para escapar daquilo ). Ela, porém, ainda o ama e o quer.
Vejo um passarinho se debatendo na gaiola.

Um dia muito especial



Todo dia pela manhã ela saía, cedo, 7 horas. A noite ainda insistia em escurecer o caminho e o frio gelava seu rosto. Assim tinha sido sua rotina nos últimos 3 meses. Caminhar até o College passando pelo parque. Eram 40 minutos para ir e um pouco mais para voltar. Adorava a paz, o silêncio e a ordem das ruas. Suas grandes casas vitorianas, muitas de tijolinho, algumas brancas. Seus dois andares com altas janelas deixando entrever o vasto espaço interno. Lá no alto as pequenas janelas das mansardas. Carros na porta, alguns brinquedos espalhados no jardim, uma calma familiaridade. Ficava observando cada pedacinho daquele mundo que não era o seu. Tudo era profundamente diferente. Sentia claramente a impossibilidade do contato. Eles estavam lá, mas as regras eram claras quanto aos limites a serem seguidos. Eles não a viam e era pressuposto que ela não os visse também. Nenhum problema com isso! Esta inclusive era uma das razões pelas quais ela gostava tanto daquele mundo.Os limites eram palpáveis, claros e transparentes. De alguma forma era para ela um alívio. Olhar e imaginar. Olhar e procurar sentir o que se passava nela, em cada um dos passantes, em tudo em volta. Seu caminho era assim seu momento de devaneio. Ia andando deixando que suas sensações trouxessem seus pensamentos.
Um dia a tarde, no final de março, voltando para casa, inesperadamente, ao entrar na sua rua, admirada sentiu, numa lufada de vento frio, um perfume. Um perfume delicioso que transformou aquela rua na mais linda rua do mundo. Olhou em volta. Afinal conhecia de cor todas as casas, janelas, portões e, principalmente jardins. De onde vinha aquele perfume capaz de iluminar de forma tão intensa a sua vida? De fazer com que sua percepção da realidade mudasse assim tão de repente, num piscar de olhos? Parou, respirou fundo. Tinha medo de perder a delícia daquela sensação. Olhou em volta, para frente e para trás e viu, logo a sua frente, o muro branco coberto de cachos lilases de uma flor desconhecida. Evidente que eram os responsáveis por transformar a Lingfield Road na mais bela rua de Londres. A sua rua.
Neste dia, ela, mulher dos trópicos, entendeu o sentido da palavra primavera.
Partiu, sem saber ainda as conseqüências daquele inebriante perfume na sua vida.

terça-feira, 3 de março de 2009

Escolha

Pergunto a ti
A que mundo pertences?
Mundo que te vejo caminhar, este,
não pertenço.

Do abismo sulfuroso que flertas,
Enfeitiçada de sortilégios dantescos,
Tonta te abandonas, cega
Acompanhada de quem já se perdeu.

Surda a meus gritos,
Impermeável a meus gestos,
Esbravejo, agora
Na esperança que acordes

Não vês que junto condenas
A quem recém chegou?
Ao mesmo abismo,
A mesma sina?

Pergunto a ti
A que mundo pertences?
Mundo que te vejo caminhar, este,
Não pertenço.