domingo, 1 de março de 2009

Um vento quente bateu... ou O Olhar

O vento quente do ventilador bateu em seu rosto, carregando seu pensamento para a sombra de uma acácia florida, amarela, num quintal quente com areia e conchinhas brancas no chão. À sombra, a imensa árvore espalhou suas favas secas e quebradas, sementes esparramadas pelo chão. Cigarras felizes com o calor do meio dia cantam quase a estourar. Suas costas vermelhas do sol da praia da manhã, ardem. O banho gelado de tina parece não ter sido suficiente para espantar o sal da lagoa que insiste em agarrar-se a sua pele. Mas a tarde está deliciosa, modorrenta. Ela se satisfaz em recolher as sementes do chão imaginando que coisas maravilhosas poderiam ser feitas com aquelas favas com som de chocalho. Mais sons. Os marimbondos voam pela varanda para onde ela corre a se balançar na rede. A rede range e canta também. Balança alto querendo chegar ao céu sem, no entanto, deixar de olhar temerosa aqueles monstros pretos ameaçando mordidas dolorosas na invasão daquele espaço. Sozinha. Todos dormem a sesta. A babá conversa com a cozinheira no alpendre junto a cozinha ou dorme, sei lá. Canta enquanto balança, o som da sua voz ressoa na varanda. Ninguém ali está muito interessado nela. Ela passeia por aquele deserto de pessoas num misto de encanto e melancolia. Assim ela se sente a maior parte do tempo. Brinca sozinha, inventa suas estórias e seus pavores.
O relaxamento da ioga terminado ela sai ainda naquele encantamento da viagem a sua infância. Pensa na constância daquelas imagens e pergunta-se o que fazer com elas. Passa a vida meio em terra, meio no ar. Lembranças e sensações estão sempre prontas a absorvê-la e jogá-la neste mundo etéreo e inexprimível.
Criança só que foi, permanece. Presa ainda neste mundo em que não havia quem a ouvisse, visse, ou mesmo reparasse. Olhos arregalados, certo temor no olhar.
Mas logo vem a lembrança de outra árvore, esta rosa, pequena, agora, em outro tempo, outro continente. Árvore que aparece também toda vez que sua alma parte desatenta a vagar. Da janela de um quarto ela a vê toda florida , vestida para receber a primavera que chega finalmente depois de tantos meses gelados. Sua vontade é de não parar de olhar aquele presente de maio. Junto a faz lembrar os estudos, exames e horas prazerosas a não acabar mais na biblioteca. Provas finais de um ano intenso na alma. Labirinto de perguntas e respostas prontamente descobertas que pareciam estar ali, ao alcance da mão, por tanto tempo guardadas. Emoção a cada poema, romance, autor. Emoção principalmente de se descobrir detentora de voz própria. Sensível ao respeito de alguém que ouve e reconhece nela a capacidade de ver além e de uma forma particular, própria. É este olhar carinhoso e aprovador que cala fundo. Desvendando a razão da lembrança. Semente desta árvore rosa de maio que faz com que tudo tenha sentido e torne impossível esquecê-lo, Olhar.

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