Todo dia pela manhã ela saía, cedo, 7 horas. A noite ainda insistia em escurecer o caminho e o frio gelava seu rosto. Assim tinha sido sua rotina nos últimos 3 meses. Caminhar até o College passando pelo parque. Eram 40 minutos para ir e um pouco mais para voltar. Adorava a paz, o silêncio e a ordem das ruas. Suas grandes casas vitorianas, muitas de tijolinho, algumas brancas. Seus dois andares com altas janelas deixando entrever o vasto espaço interno. Lá no alto as pequenas janelas das mansardas. Carros na porta, alguns brinquedos espalhados no jardim, uma calma familiaridade. Ficava observando cada pedacinho daquele mundo que não era o seu. Tudo era profundamente diferente. Sentia claramente a impossibilidade do contato. Eles estavam lá, mas as regras eram claras quanto aos limites a serem seguidos. Eles não a viam e era pressuposto que ela não os visse também. Nenhum problema com isso! Esta inclusive era uma das razões pelas quais ela gostava tanto daquele mundo.Os limites eram palpáveis, claros e transparentes. De alguma forma era para ela um alívio. Olhar e imaginar. Olhar e procurar sentir o que se passava nela, em cada um dos passantes, em tudo em volta. Seu caminho era assim seu momento de devaneio. Ia andando deixando que suas sensações trouxessem seus pensamentos.
Um dia a tarde, no final de março, voltando para casa, inesperadamente, ao entrar na sua rua, admirada sentiu, numa lufada de vento frio, um perfume. Um perfume delicioso que transformou aquela rua na mais linda rua do mundo. Olhou em volta. Afinal conhecia de cor todas as casas, janelas, portões e, principalmente jardins. De onde vinha aquele perfume capaz de iluminar de forma tão intensa a sua vida? De fazer com que sua percepção da realidade mudasse assim tão de repente, num piscar de olhos? Parou, respirou fundo. Tinha medo de perder a delícia daquela sensação. Olhou em volta, para frente e para trás e viu, logo a sua frente, o muro branco coberto de cachos lilases de uma flor desconhecida. Evidente que eram os responsáveis por transformar a Lingfield Road na mais bela rua de Londres. A sua rua.
Neste dia, ela, mulher dos trópicos, entendeu o sentido da palavra primavera.
Partiu, sem saber ainda as conseqüências daquele inebriante perfume na sua vida.
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