Leio Clarisse como se comesse algo , sem parar. Tenho as mãos atadas. Vou com ela nessa viagem sem conseguir voltar. Temo a mudez, o silêncio que se fez dentro de mim. Onde estou? Me perco nas mil atividades dos outros. No entanto uma flauta em meio a um terraço ensolarado me traz de volta. Chuva de pequenas notas tocando aos ouvidos. A princípio só olho, intrigada e curiosa, aquele homem com sua flauta de bambu no terraço ensolarado do restaurante da Provence, alto de longuíssmas pernas, mal cabendo no espaço que tenta desajeitadamente ocupar, incomodado que está de impor sua música ao público pouco receptivo a tocadores de flautas de bambu em terraços ensolarados da Provence. Atentamente observo o balé de suas pernas, marionete de seu próprio desconforto. Súbito se põe a tocar preenchendo o ar de notas e lembranças inesperadas. Leva-me a um quase jardim floresta de bambus gigantes, onde a contemplar a chuva que caía tomei um chá verde e amargo.O amargo aparece no final da língua, lá no fundo. Uma pequena folha rosa de açucar acompanha o chá. O Japão me foi apresentado num momento de completa exaustão. Eu estava doente, com a sensibilidade à flor da pele e aquela flauta me faz de novo mergulhar naquele mundo onde cada objeto, árvore, som ou movimento fazem um sentido todo próprio, onde eu me sentia como que incorporada àquele mundo, num movimento lento e coordenado com a paisagem. Penso que não é pela beleza estética das coisas que tudo é exaustivamente trabalhado e arranjado, mas sim pela procura de uma certa harmonia que fará com que a mente se apazigue e a dor passe. O simples olhar do belo equilibra a alma. A mente relaxa, os nós se desfazem, e você passa a fazer parte daquele todo. Fonte de descanso. O som da chuva nos bambus gigantes do templo budista de Yokohama. O gosto amargo do chá verde e o açucar da pétala a derretar na boca. Doce amargo escorregando pela garganta enquanto a floresta preenche os olhos soltando seus sons infinitos de gotas a bater nos bambus gigantes. Paz. Flauta de bambu que agora chega a meus ouvidos. Bendita flauta... De novo chove no jardim floresta de bambus gigantes num terraço ensolarado da Provence. Paradoxo japonês.
Maio/2009
Maio/2009
Lindo o texto! AS imagens estão originais e claras. Parabéns
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