Geografia da alma
Na
agitação de minha primeira viagem à Europa, eu olhava pela janela do 707. Lá embaixo
via algo que deduzi ser o deserto. Jogo de luz e sombra a desenhar o relevo. Minhas
aulas de história se desdobravam à minha frente. D. Ieda, o Egito, a Mesopotâmia.
Outros tempos, época em que ainda se fazia escala em Dakar. Agora de novo
revejo na cena de um filme o deserto do alto, as mesmas cores, alturas
diferentes. Parecem corpos vivos e nus espalhados na areia se aquecendo ao sol.
A imagem me atrai e de novo viajo a outro lugar. Uma imensa porta de pedra onde
dois leões saltam fazendo um arco. Micenas, onde o tempo é uma variável
inexistente. Lembro do som da flauta no ar e das cabras nas colinas à volta
povoando o lugar de mitológicos personagens.
Anseio por estes encontros. Procuro incessantemente estes lugares
capazes de me levarem a este mergulho dentro de mim. Como um peixe desliso neste universo aquoso,
fascinante. Dimensão outra daquela que vivo, guardo o fio de Ariadne firme em
meu punho crispado. Lugar é o deserto angustiante da cena do
filme. Tudo e nada ao mesmo tempo. Beleza inóspita, áspera. Procuro lugares.