quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Geografia da alma



Na agitação de minha primeira viagem à Europa, eu olhava pela janela do 707. Lá embaixo via algo que deduzi ser o deserto. Jogo de luz e sombra a desenhar o relevo. Minhas aulas de história se desdobravam à minha frente. D. Ieda, o Egito, a Mesopotâmia. Outros tempos, época em que ainda se fazia escala em Dakar. Agora de novo revejo na cena de um filme o deserto do alto, as mesmas cores, alturas diferentes. Parecem corpos vivos e nus espalhados na areia se aquecendo ao sol. A imagem me atrai e de novo viajo a outro lugar. Uma imensa porta de pedra onde dois leões saltam fazendo um arco.  Micenas, onde o tempo é uma variável inexistente. Lembro do som da flauta no ar e das cabras nas colinas à volta povoando o lugar de mitológicos personagens.  Anseio por estes encontros. Procuro incessantemente estes lugares capazes de me levarem a este mergulho dentro de mim.  Como um peixe desliso neste universo aquoso, fascinante. Dimensão outra daquela que vivo, guardo o fio de Ariadne firme em meu punho crispado.   Lugar é o deserto angustiante da cena do filme. Tudo e nada ao mesmo tempo. Beleza inóspita, áspera. Procuro lugares.

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